Conviver com o cinema: curadoria e programação como intervenção na história
Notice bibliographique
Résumé
Conviver com o cinema: curadoria e programação como intervenção na história Amaranta Cesar Tem momentos, como esse, em que a gente tem de estar na luta como água.A água vai pingando: pin, pin, pin… Ninguém está vendo a água pingando.Daqui a pouco, está tudo alagado.É assim que a gente vai ter que agir, como Dandalunda, como Oxum, como Aziri, como água.(Makota Valdina) Ao esboçar as primeiras palavras deste texto, o título do antológico livro do escritor martinicano Patrick Chamoiseau (1997) ronda o espírito e impõe-se: "escrever em país dominado".Mal chegamos à metade do mandato presidencial de Jair Bolsonaro e uma série de medidas contra a educação, a ciência e a arte instalou no Brasil uma atmosfera de dominação tal que não seria muito exagerado dizer que, hoje, neste país, ensinamos, pesquisamos, fazemos ciência e arte como quem levanta a cabeça e subleva-se.Mas, se é novo este ambiente opressivo cujos contornos são forjados por uma ultradireita ainda mal compreendida na extensão e capilaridade do seu domínio, o sistema de dominação ao qual se refere Chamoiseau em seu livro é antigo: a colonização.Como escrever quando seu imaginário se alimenta, desde a manhã até os sonhos, com imagens, pensamentos, valores que não são os seus?Como escrever quando o que você é vegeta além dos elos que determinam sua vida?Como escrever, dominado?(CHAMOISEAU, 1997, p. 17, tradução nossa) 138 • desaguar em cinema A profunda inquietação que move a literatura do poeta e ensaísta martinicano insurge-se contra a política de assimilação cultural e de discriminação racial forjada pelo colonialismo francês nas Antilhas, que, através da perspectiva do universalismo, disseminou valores ocidentais como normativos e promoveu a desvinculação do sujeito colonizado de sua verdadeira história -uma dissociação, acrescento eu, que é correlativa à coerção subjetiva promovida nas mulheres e homossexuais pelo patriarcado e pela heteronormatividade compulsória.Chamoiseau (1997) alia-se, assim, a Frantz Fanon (2008), seu conterrâneo, no entendimento de que a dominação colonial age no imaginário e pelo imaginário, para instituir a cisão, nesse caso étnico-racial, que separa aqueles que são sujeitos e os outros, objetos do olhar e do saber dominante colonizador.E, então, ele indaga: como escapar da dominação imaginária através da literatura, uma vez que, historicamente, a linguagem é também terreno disputado pela empresa colonial?No enfrentamento desse impasse, ele aposta na importância da releitura literária como procedimento de libertação.Seguindo uma pista semelhante, também a partir do entendimento do caráter traumático da experiência colonial e do reconhecimento da relação entre seus modos de dominação e as representações (literárias, artísticas, cinematográficas), bell hooks (2019) defende uma prática emancipadora de recepção, especificamente de espectatorialidade, para a qual o "olhar" é um lugar de resistência: "subordinados na relação de poder aprendem pela experiência que existe um olhar crítico, aquele que 'olha' para registrar, aquele que é opositor".Na esteira de Stuart Hall (2003), hooks enfatiza que o modo como o regime colonial posicionou um conjunto de pessoas, nomeadamente os negros, como o "Outro" do poder dominante -e ainda os sujeitou a essa noção de alteridade como uma conformação subjetiva à norma -surgiu como efeito de um exercício crítico de poder cultural e normalização.A descolonização implicaria, contrariamente, numa prática crítica de contrapoder -leituras e olhares de resistência no seio da cultura -que, como um processo político, diz respeito, segundo ela, a uma "luta para nos definir internamente" (HOOKS, 2019, p. 37).Nesse sentido, uma vez que as imagens cinematográficas e midiáticas se constituem, no seu entendimento, como espaço privilegiado de perpetuação da dominação e opressão subjetivas e imaginárias, ampliar as fronteiras das imagens, através do exercício crítico consiste em uma "luta política".Considerar crucial "o modo como escrevemos e falamos criticamente a respeito das imagens" é, assim, para bell hooks, uma Conviver com o cinema | 139 forma de encarar as feridas abertas do regime de dominação colonial.A descolonização, ela nos diz, demanda uma intervenção crítica no mundo das imagens para transformá-lo, intervenção essa que deve assumir uma posição de destaque nos movimentos políticos de libertação e autodefinição -sejam eles anti-imperialistas, feministas, pelos direitos dos homossexuais, pela libertação dos negros e mais".(HOOKS, 2019) Dito isso, chegamos, finalmente, de modo mais direto, ao objeto deste texto.Organizar um festival de cinema é construir um espaço de distribuição e legitimação que intervém crítica e historicamente no campo das imagens seja para reafirmar, seja para contestar relações de poder.Nesse sentido, uma atividade de curadoria de festival de cinema que se entenda como prática crítica emancipadora encontra instrução fundante no chamado de bell hooks: "peço que consideremos a perspectiva a partir da qual olhamos, questionando de modo vigilante com quem nos identificamos, quais imagens amamos".(HOOKS, 2019, p. 39) Tal convocação, entendida como premissa crítica, remonta, renovando sua dimensão política, àquilo que está posto no significado da raiz etimológica latina da palavra curadoria: curare, "de cultivar, cuidar, podar e tentar ajudar as pessoas e seus contextos compartilhados a se desenvolver", como define o curador suíço Hans Ulrich Obrist (2008, p. 38).Ao conceito de curadoria formulado por Obrist, sobrepõe-se imperativamente uma dimensão contracolonial, ao considerarmos que os contextos artísticos e cinematográficos em desenvolvimento no Brasil, muito distintos da realidade suíça, estão atados às desigualdades estruturais herdadas da ferida colonial, que atravessam todo o tecido sociocultural do país.Neste cenário, boa parte do trabalho de dar a ver ou expor cinema/arte não se restringe ao cuidado com as obras/filmes, mas compreende uma atenção ao tecido político que as torna possíveis.Quando a experiência curatorial se localiza em Cachoeira, cidade histórica do Recôncavo da Bahia, marcada pelo trauma colonial, o cuidado, ou uma possível ética do cuidado, implicado na noção de curadoria diz respeito ainda a uma consideração tanto das opressões históricas quanto das forças ancestrais que atravessam esse território.A perspectiva do interior: curando pela margem Para compreensão da natureza dessa experiência, localizá-la minimamente é essencial.
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Prédiction machine sur la base complète
Imitation des enseignantsNi prévalence calibrée, ni vérité terrain. Validation humaine à venir. Le volet Gemma est une étiquette directe du modèle pour chaque travail de la base, lue sur la notice réduite au titre. Le volet Codex est un classifieur appris des 10 348 étiquettes directes de Codex et calibré sur les taux pondérés de l'échantillon; les champs sans appui suffisant ne portent aucun appel Codex. Le mode candidate est l'union des deux volets; le consensus est leur intersection. Ces sorties portent le statut machine_predicted_unvalidated et ne sont pas des étiquettes humaines.
Scores du classifieur distillé par catégorie (deux têtes)
| Catégorie | Codex | Gemma |
|---|---|---|
| Métarecherche | 0,002 | 0,006 |
| Méta-épidémiologie (sens strict) | 0,000 | 0,000 |
| Méta-épidémiologie (sens large) | 0,000 | 0,000 |
| Bibliométrie | 0,001 | 0,001 |
| Études des sciences et des technologies | 0,010 | 0,010 |
| Communication savante | 0,006 | 0,004 |
| Science ouverte | 0,001 | 0,004 |
| Intégrité de la recherche | 0,002 | 0,004 |
| Charge utile insuffisante (le modèle a refusé de juger) | 0,017 | 0,001 |
Scores machine (provisoires)
Les deux têtes enseignantes du modèle étudiant, lues sur ce travail. Un score ordonne la base pour la relecture; il n'affirme jamais une catégorie, et le statut de validation accompagne chaque rangée tel quel.
Scores de référence d'un modèle non mature (critères de maturité non atteints, 7 itérations). Un score ordonne; il n'affirme jamais une catégorie.
score_only:v0-immature-baseline · tel quel depuis la passe de notation : score_only signifie que le nombre peut ordonner les travaux, et qu'aucune étiquette de catégorie n'en découleClassification
machine, non validéePrédiction automatique; un appel candidat d’une seule source (Gemma direct ou Codex distillé), pas un consensus.
Le détail, modèle par modèle et score par score, se trouve en fin de page sous « Comment cette classification a été obtenue ».